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HISTÓRIA

 

SURGIMENTO

 

    As circunstâncias que envolveram o surgimento do Grêmio Esportivo Flamengo, atual Socidade Esportiva e Recreativa Caxias do Sul estão diretamente ligadas ao seu mais tradicional rival. A forma como foi fundada revela também uma coincidência que é observada até os dias de hoje. Os detalhes que cercaram os dias que antecederam a decisão de um grupo de desportistas igualmente evidenciam a disposição de unirem-se, deixando para trás as agremiaçõesa que pertenciam para dedicarem-se a um novo clube. Passaram-se 69 anos e muitos dos fatos ainda permanecem vivos na memória dos que se entregaram ao desejo de formar um time forte que integrasse os torcedores do então pouco habitado bairro São Pelegrino, separado do centro da cidade ainda por morros e vegetação.

 

    A reconstituição dos fatos marcantes do ínicio da vida do Flamengo - hoje SER Caxias - foi feita com base em informações coletadas junto a pessoas que participaram ativamente das tratativas da fusão entre Rui Barbosa e Rio Branco, os dois times que deram origem ao clube que viria a se tornar o mais histórico adversário do então forte e quase imbatível E.C. Juventude. Ítalo Bertuzzi foi fundador e integrante da primeira diretoria do clube, no cargo de segundo secretário; Alfredo Caberlon também fundador e primeiro secretário do Flamengo; e Cypriano Torresini, fundador e primeiro zagueiro do time.

 

    Os dados por eles fornecidos se fundem inclusive em detalhes. Evidentemente que passagens foram vencidas pelo esquecimento, emoções ainda poderam ser lembradas, desentendimentos superados, pelos reecontros amigáveis. Mas é graças a eles - e certamente a um número expressivo de pessoas que poderiam contribuir com mais informações, unindo elos que acabaram cortados pelo tempo - que procuramos reproduzir, no ambiente de 1935, como surgiu o clube que deu origem a SER CAXIAS.

 

DECISÃO

 

    Estamos no mês de março de 1935. O campeonato da cidade de Caxias do Sul está por ser decidido. O Rui Barbosa que não era o me

lhor time, acabou surpreendendo e precisava de uma vitória sobre o Guarani para chegar ao título. Um empate implicaria na realização de um jogo extra contra o Alviverde, time que tinha na sua formação cinco jogadores cedidos pelo Juventude - mais categorizados, o que acirrava a disputa e aumentava a rivalidade. A partida se aproxima do seu final e o resultado aponta zero a zero. Um pouco antes de ser apitado o término , um jogador do Rui Barbosa chuta a bola contra o gol adversário. A bola ainda está no ar quando soa o apito. A bola acaba entrando no gol do Guarani. O juiz decidiu pela vitória do Rui Barbosa.

 

    Esta partida, que por si só revela como singularidade a forma como aconteceu o gol, seria a última do Rui Barbosa, que se juntaria ao Rio Branco, para formar o Flamengo. Muito lúcido, Ítalo Bertuzzi conta assim os passos que se seguiram: "O presidente da liga de futebol, Osvaldo Ártico, fazia parte da diretoria do Juventude, clube que tinha interesse em que o Alviverde fosse campeão, tanto que cedera jogadores. Houve protesto do Guarani e o caso acabou sendo julgado pela liga. A decisão, para surpresa de todos nós - Bertuzzi era da diretoria do Rui Barbosa-, foi a mais injusta possível. Não só não tivemos o direito de disputar uma partida extra, como perdemos os pontos. Isso fez com que o Alviverde fosse o campeão da cidade. Foi então que Germano Pisani, presidente do Rio Branco, procurou o presidente do Rui Barbosa, Sílvio Toigo e propôs uma fusão".

 

    Estava nascendo aí o Grêmio Esportivo Flamengo. Os dirigentes pensavam que unindo as forças dos dois clubes, teriam condições não apenas para enfrentar os tradicionais rivais dos campeonato citadino, mas especialmente o Juventude. Foi marcada uma reunião entre os dirigentes do Rui Barbosa e do Rio Branco, à qual também compareceram torcedores e jogadores. O local deste encontro hoje é o número 310 da Avenida Rio Branco, quase no limite dos bairros São Pelegrino e Rio Branco. Na época, a casa levava o número 36 e era a sede do Rio Branco.

 

Casa onde foi fundado o Grêmio Esportivo Flamengo

 

    O primeiro contato entre dirigentes dos dois clubes foi feito ainda no local onde funcionava a Liga de Futebol de Caxias, na altura de onde hoje funciona a farmácia do Círculo Operário. A decisão de formar o novo clube, entretanto, só veio mesmo na reunião do dia 10 de Abril. A idéia era aproveitar os jogadores dos dois times, fazer uma seleção, escolher uma diretoria e já a partir daquele dia iniciar o trabalho que tinha por objetivo vencer ao rival.

 

    Há mais de uma versão sobre a origem do Flamengo. A de Bertuzzi diz que um senhor chamado Jordário - não lembra de todo o nome -  sugeriu que o time se chamasse Flamengo porque essa era uma língua já extinta e que ele considerava bonita. Alfredo Caberlon atribui o nome a Bortolo Facchin, que acompanhava muito o futebol do centro do país e gostava do Flamengo do Rio de Janeiro. Há ainda informações de que o nome Flamengo foi inspirado no nome de um time da época chamado  Flaminguinho, que atuava durante apenas parte do ano, especialmente no verão.

 

    Se existem algumas divergências quanto à origem do nome , o mesmo não acontece em relação as cores: elas foram herdadas do Rui Barbosa(bordô e branco) e do Rio Branco(azul e branco). Por consenso chegaram ao tricolor. Durante algum tempo as cores das camisas viriam a sofrer pequenas alterações. O bordô foi mais avermelhado, como tática para atrair torcedores do Juvenil, time que havia encerrado as atividades. Mas o efeito não foi o esperado. "Poucos juvenilistas vieram para o Flamengo", resume Bertuzzi. Então as cores voltaram as originais.

 

    Faltava ainda definir o quadro diretivo do clube. Democraticamente resoolveram juntar os dirigentes do Rio Branco com os do Rui Barbosa. Foi feito um sorteio que indicou estes nomes para a primeira diretoria do Grêmio Esportivo Flamengo:

 

Presidente: Sílvio Toigo

1ºVice-Presidente:Bôrtolo Facchin

1ºVice-Presidente:Germano Pisani

1ºSecretário:Alfredo Caberlon

2ºSecretário:Mário Menegaz

1ºTesoureiro:Guerino Bedin

2ºTesoureiro:Ítalo Bertuzzi

 

    Esses nomes integraram a primeira diretoria da história do novo clube iniciada há 69 anos.

 

    Não existe ata desta reunião. A primeira do clube data de 26 de abril de 1935, mas confirma as pessoas e os cargos antes relacionados. Faltava ainda a filiação a Federação Gaúcha de Futebol, o que naquele tempo tinha a demora de muitos meses. Como havia uma vontade incontida de testar o novo time e, como declarou Ítalo Bertuzzi, "pegar o Juventude, porque estavamos como sede de vencê-los", a solução encontrada foi utilizar os estatutos do clube Flaminguinho, para poder se filiar e disputar o campeonato.

 

    No mesmo ano, porém, a Federação elaborou um livro com todos os clubes filiados nas ligas de suas respectivas cidades e o Flamengo foi reconhecido, ganhando, portanto, condições normais para participar do campeonato seguinte. A partir desta data, o clube começou sua trajetória de disputas e já no segundo ano já ganhava o seu primeiro título de sua história: campeão de Caxias. Para Bertuzzi, assim como outros torcedores, era a realização de um sonho e, como ele mesmo diz, é difícil de descrever a grande festa para comemorá-lo.

 

Formar o primeiro time não era tarefa amena. Apesar do perfeito entrosamento entre os dirigentes dos dois clubes que haviam deixado de existir para dar origem ao Flamengo, deveria prevalecer o bom senso na escolha dos 11 titulares. Essa incumbência foi confiada ao tentente Eloy Moreira Pitta, o primeiro treinador da história do Flamengo. As primeiras atribuições do treinador há 69 anos eram bem diferentes das atuais. Não havia normas táticas, os treinos não obedeciam regularidade e o fisicultor era uma figura ausente. Os exercícios físicos eram quase que exclusivamente os feitos no trabalho que cada jogador tinha e desenvolvia durante a semana. Afinal, era o mais puro amadorismo.

  

    Cypriano Torresini tinha 22 anos quando começou a jogar pelo Flamengo. Foi o primeiro zagueiro do time, vindo do Rui Barbosa. Tinha 1,60m de altura, mas compensava essa considerada baixa estatura para a posição com uma impulsão invejável. "Nunca joguei por 

dinheiro", diz ele sem esconder um fio de orgulho por isso. O amor à camiseta, tão restrito nos jogadores dos dias de hoje, era o sentimento que predominava em toda a disputa e estimulava os atletas para o maior e mais real empenho dentro de campo. Durante os anos em que jogou pelo Flamengo - quatro, porque depois surgiu a Eberle, e como ele trabalhava na metalúrgica, passou a pertencer ao time de sua empresa - lembra-se apenas de ter recebido presentes quando casou. Foram paneleiro, pratos, copos e outros utensílios.

 

Cypriano Torresini, primeiro zagueiro do Flamengo

 

    Esses presentes, entretanto, jamais compensariam o esforço que os jogadores daquela época dispendiam. "Esperavámos terminaro jogo do time aspirante para pegarmos as chuteiras de nossos colegas.  Havia uma chuteira para cada dois jogadores, e mesmo assim era a gente que comprava". Era fornecido o restante do fardamento, mas geralmente havia apenas um terno de camisas. Os atletas iam caminhando para o campo e muitos deles ainda passavam "pela casa da namorada antes de ir para o jogo".

 

    Torresini conta também que não era apenas a falta de infra-estrutura, característica do amadorismo, que contribuía para a soma de diferenças com os dias atuais. A bola, ou o "tento", como alguns chamavam - devido a um barbante que era amarrado para unir as duas extremidades e facilmente desatava-se, ficando exposto -,"era bem mais dura. Quando íamos cabecear, doía muito. Mas ninguém deixava de fazê-lo por isso. Naquele tempo, nos colocavamos a cabeça onde o jogador botava o pé. Hoje, saio de um estádio decepcionado com a falta de empenho. Os jogadores atuais não entram numa bola dividida, não suam, não jogam pela camiseta". Opina o ex-zagueiro.

 

    Torresini participou da primeira partida da história do Flamengo e, segundo ele, foi justamente contra o Juventude: " O Juventude tinha ganho do Grêmio por 4x1 e nos vencemos eles por 3x1. Na segunda perdemos para eles por 4x1". O terceiro jogo entre eles decidia o campeonato da cidade e foi realizado em campo neutro, em Porto Alegre. Cada time ocupou um vagão de trem para a viagem. Era setembro de 1935, coincidentemente mês em que se comemorava o centenário da revolução farroupilha. O resultado foi 2x1 para o Juventude. No ano seguinte, entretanto o Flamengo conquistaria o título.

 

    Em mais de 15 anos como jogador, Torresini conta, com um certo orgulho, que jamais deixou de participar de uma partida por lesão. "Naquele tempo nem sabíamos o que era distensão. O jogador não tinha privilégios na sociedade, mas fazíamos muitas amizades, que valeram bem mais do que qualquer dinheiro que poderíamos ter ganho". A pouca incidência de lesões nas décadas de 30 e 40 é um índicio ressaltado por Torresini que o futebol naquele tempo era menos violento do que hoje."Não aceito hoje quando um zagueiro pula de frente para a bola e faz falta no atacante", declara ele, lembrando sua baixa estatura e a regularidade com que jogava.

 

    Foi sua altura inclusive que numa excursão a Garibaldi foi motivo para um fato curioso. Ao chegar naquela cidade,a delegação foi recebida pelos dirigentes locais. Todos os jogadores foram apresentados e quando chegou a sua vez os garibaldenses olharam com alguma desconfiança para ele. "Eles apontavam para mim dizendo que eu não podia jogar. Não acreditavam que com minha altura seria um zagueiro", recorda. Eles somente foram convencidos quando Cypriano Torresini entrou em campo com a camisa do Flamengo e brindou-os com uma excelente atuação.

 

    No ínicio da vida do Flamengo, o que para a época era normal atualmente seria considerado um absurdo. Não havia preparação física, "mas todos aguentavam uma ou duas partidas sem cansar", responde Torresini. A posição, ainda conforme ele, "era o próprio jogador que fazia. O treinador só escalava e o atleta sabia o que fazer. Não era complicado". Também não havia massagista, apenas o que chamavam de guarda-esporte, o que corresponde ao roupeiro. O ex-zagueiro com seus 72 anos de idade (entrevista de 1985), lembra do jogador mais importante que ele marcou. "Foi na década de 30 e ele jogava pelo Juventude. Era o Antônio Garbim".

 

TIME

 

    Sem possuir campo próprio, o Flamengo jogava no que antes era do Rio Branco - que também não era proprietário. Ele ficava no Bairro Rio Branco, altura de onde hoje funciona a AutoTravi(1985). Na foto do primeiro time aparecem 13 jogadores e mais o treinador Pitta. Os 11 titulares de acordo com a lembrança de Torresini eram: Maguicha, Cypriano, Tibicho, Barulho, Assis Brasil de Freitas(Sizo), Antônio Bonollo, Laureano Evangelista, Clodomiro Marques Batista(Filinho), Zezé, Tenente Antenor e Sargento Assis. Os reservas que aparecem na foto são Nenê e Monteiro. Desse time, além de Torresini somente mais um atleta ainda vive em Caxias: Bonollo. Com esses jogadores começavam as glórias do Flamengo.

 

Primeira Equipe do Flamengo, em 1935

 

    Apesar de se emocionar muito quando fala de seus ex-companheiros de time, o que faz surgir lágrimas em seus olhos, Torresini não esconde uma mágoa: "Nunca se lembraram de mim, que dei as cores ao time. Nunca fui convidado, nem me participaram de nenhuma festividade na história do Flamengo ou depois, quando se passou a se chamar Caxias.

 

EXPLORAÇÃO DA SEDE EM TROCA DE FUTEBOL

 

    Estabelecer uma data limite entre o puro amadorismo e o período em que os jogadores começaram a receber para jogar no Flamengo, fica muito díficil.

   

    Mesmo na década de 50, muitos dos atletas, especialmente os caxienses, continuavam jogando sem ter nenhuma remuneração.

 

    O amor a camiseta prevalecia e os que eram pagos, na sua quase totalidade eram atletas vindos de outras cidades. Não há registros sobre o primeiro jogador que possa ser considerado como profissional, a partir exclusivamente da retribuição financeira pelo seu talento e capacidade dentro de campo. Ítalo Bertuzzi, integrante da primeira diretoria do clube, entretanto, revela aquele que foi o pioneiro no time.

   

    O ano era 1936 e os dirigentes do Flamengo continuavam com o pensamento voltado para a formação de uma equipe que superasse o Juventude. Havia bons jogadores na cidade, mas a informação chegada até eles de que em Nova Prata tinha um atleta que se destacava fez com que olheiros se deslocassem até a vizinha cidade. Realmente era um bom jogador e no mesmo dia foi feita uma proposta para que ele viesse a integrar o plantel do Flamengo. Roberto Negreto aceitou. Em troca, ele poderia explorar a copa da sede do Rio Branco, que apesar da fusão, continuava sendo frequentada por torcedores. O dinheiro para seu sustento, portanto, vinha de seu próprio trabalho. Mas, assegura Bertuzzi, foi o primeiro jogador a receber algo em troca para ceder seu futebol ao Flamengo. Era uma inovação para o clube, mas nem por isso entre outros atletas houve alguma reação. Os demais permaneceram atuando da forma anterior. O que poderia ser hoje um contrato milionário, ou que pelo menos pudesse dar certa estabilidade a um dos melhores jogadores da região, ficou apenas na exploração da copa.

 

DECISÃO DE 1947: UMA PARTIDA QUE TODOS LEMBRAM COM GRANDE EMOÇÃO

 

    Jogadores, dirigentes e torcedores da SER CAXIAS que acompanharam a história do clube desde sua fundação em 1935, guardam com muito carinho a emoção da decisão de 1947. Há sobradas razões para que esse ao seja citado como o em que maior emoção tiveram. Ele marcava, em primeiro lugar, a volta do Flamengo à atividade no futebol. Isso, apenas isso, já representa o renascer de esperanças e o retorno aos campos, torcendo, vibrando, sofrendo com o clube do coração. Mas 1947 reservaria ainda um acontecimento aos que foram ao hoje Alfredo Jaconi.

 

    Os relatos feitos por três pessoas - uma que estava na cidade, outra que estava chegando de Porto Alegre e uma terceira que participou da partida - dão a exata dimensão da emoção que tomou conta de pelo menos metade da cidade. "O que mais me marcou em toda a história do clube foi o primeiro campeonato conquistado, porque torcedores e dirigentes do Juventude, logo que fundamos o Flamengo, diziam que iam ganhar de nós com as pernas amarradas. Mas a maior emoção que tive foi na decisão de 1947". As palavras são de Ítalo Bertuzzi. "Chegava da capital e vi admirado, uma grande festa. Então fiquei sabendo o que aconteceu". A descrição é de Alfredo Caberlon. "Foi o gol mais importante da minha carreira. É difícil contar, descrever, o que sentia naquele momento". A declaração é de Herry Detânico, ex-zagueiro do time.

 

    O jogo, de fato, teria um final cheio de emoções. Por incrível que possa parecer, a partida decisiva teve de ser jogada na tarde de uma quarta-feira, dia útil, por falta de outra data. Caberlon viajara sem muitas esperanças. Bertuzzi, para seu azar, fora citado como testemunha e teve que comparecer a uma sessão do tribunal do júri, que julgava o autor de um crime. Detânico, entretanto, quando o juiz deu ínicio ao jogo, estava postado na posição que hoje seria do zagueiro central. Bertuzzi confessa que estava nervoso para acompanhar a decisão e tão logo foi liberado, saiu às pressas para o campo. Com Caberlon, a situação era mais difícil, devido a distância. Com Detânico, o nervosismo era intenso porque ele via a aparente superioridade do adversário nos minutos iniciais do jogo.

 

    Por 80 minutos da partida, o sofrimento seria maior. O Juventude, com um bom time, fizera dois gols e já começava a comemorar dentro e fora de campo, com sua torcida, a conquista do título. Passavam dos 35 minutos da etapa final quando Bertuzzi, chegou, ofegante ao campo. Ficou decepcionado quando soube que seu time estava perdendo. Detânico, embora ainda com minguadas esperanças, via diminuir as possibilidades de uma reação com o andar rápido dos minutos. Foi ele, zagueiro, que começou a mudar a história naquele dia para o futebol caxiense.

 

    "Perdido por dois, ou perdido por mil, naquela altura nada ia alterar nossa tristeza", revelava ele. Pensando da mesma forma há 57 anos, avançou. Num cruzamento para a área do Juventude ele cabeceou e diminuiu a vantagem para o adversário. Bertuzzi vibrou, mas contidamente. A partida estava por se acabar. Bastavam ainda pouco mais de quatro minutos e novamente o Flamengo estava no ataque. A jogada culminaria com o gol de empate, marcado por Sadi Costamilan. Aos 43 minutos, Alemãozinho ainda chutaria uma bola contra o travessão do Juventude. Era muita vibração dos Flamenguistas, para desconsolo dos torcedores rivais, que já estavam com a festa organizada para comemorar.

 

    O empate em 2x2, resultado do jogo em seu tempo normal, era sinal de recuperação do Flamengo. Mais do que isso seus jogadores, que dez minutos antes quase se deixavam dobrar pelo abatimento agora estavam revigorados, confiantes e esperançosos na conquista do campeonato, que tinha de ser decidido naquele dia. Veio a prorrogação. Caberlon permanecia em Porto Alegre. Bertuzzi estava agora mais próximo à linha marginal do campo. Detânico era uma parede para o ataque do Juventude.

 

    Quem tivesse saído do campo 15 minutos antes e retornasse naquele momento, não acreditaria no que estava vendo. Mas a tarde ainda tinha mais uma surpresa para oferecer, para felicidade dos flamenguistas. Na prorrogação o centroavante Letti acabaria se consagrando, ao marcar o gol da vitória. "Foi uma virada histórica. Lembro que abraçava meu filho como nunca.", conta Bertuzzi. "Quando soube que o Flamengo tinha ganho o campeonato, depois de ter ficado tanto tempo parado, tratei de também tomar parte da festa", relata Caberlon. "A emoção que senti valeu muito mais do dinheiro que poderia ter ganho mas nunca ganhei", compara Detânico. Outros títulos viriam, mas esse estava marcado definitivamente na memória dos que viveram aqueles momentos de sofrimento e posterior vibração contagiante. No ano seguinte o Flamengo seria bicampeão e depois só voltaria a ganhar o certame em 1951. Mas aquela vitória não iria jamais para a gaveta do esquecimento. Melhor definição do que a dada por Bertuzzi é difícil de encontrar: "Nem quando casei tive uma emoção dessas".

 

Time Campeão de 1947

 

HERRY DETÂNICO: UMA VIDA JOGANDO E TORCENDO PELAS MESMAS CORES

 

    O que pode fazer com que um atleta desconsidere um convite de um grande clube como o Internacional de Porto Alegre´para se integrar ao seu plantel; que trabalhe durante toda a semana; que trabalhe toda a semana como motorista de caminhão e aos domingos esteja sempre a disposição do treinador; que repentinamente deixe de assistir ao futebol, esporte favorito apenas por seu time não joga mais com as cores tradicionais, mas que voltar ao uniforme tricolor passa a ser presença constante nas sociais  do estádio; que se esforce, se empenhe, dedique parte de sua vida, sem receber nenhuma retribuição material? A resposta é essa pessoa mesmo quem dá: "Eu jogava porque gostava, era flamenguista doente e hoje sou doente pela SER CAXIAS. Para mim sempre foi o melhor clube do mundo".

 

    Com 61 anos de idade, Herry Detânico tem muito o que contar sobre o futebol de Caxias. Começou a jogar no período em que o Flamengo havia desativado seu departamento de futebol, em meados da década de 40. Em 1947, quando voltou, os dirigentes trataram de formar um time selecionando jogadores de vários outros clubes. Do Tupi, Juventus, Vera Cruz, Ás de Ouro e Pombal. Deste último foram escolhidos seis: Tena, Sadi e Ladi Costamilan, Alemãozinho, Higino e Herry Detânico.

    

    Detânico tinha 23 anos de idade e foi titular absoluto da agora transformada em zaga central até 1953, quando se transferiu para o Gianella. Em todos esses quase 7 anos de Flamengo, deixou de participar de apenas uma partida. Inexplicavelmente não foi escalado nem para o time inferior, nem para o principal. Lamentou muito ficar no banco, coisa a que não estava acostumado, e especialmente porque era um clássico FLA-JU. Mas ao final do jogo, com a goleada de 6 a 0 aplicada pelo Juventude, Detânico deixou de se lamentar por ter ficado no banco.

 

    Jogador forte, 1,82mts de altura, tinha como características a rispidez e a violência, nunca a deslealdade. "Não sei quantas vezes fui expulso, foram tantas. Mas sei que jamais algum jogador adversário teve que deixar o campo por eu o ter atingido", recorda Detânico. Ele ajudou a dar dois títulos ao seu time, campeão citadino em 1947 e 1951. Não esquece seu treinador, Saldanha Ribeiro, o presidente Alcides Almeida, nem o esforço de Aquelino e Ativo Froner, responsáveis em sua opinião, por grandes realizações no clube.

 

Herry Detânico, Zagueiro do Flamengo de 1947 à 1953

 

    A vontade de jogar era tamanha que nenhuma fratura impedia a participação numa disputa, como em 1948, contra o Renner de Porto Alegre, pelo campeonato estadual. Num lance casual, Detânico teve seu braço quebrado. Seu irmão levou-o até a casa de uma senhora que arrumava ossos. Depois, queria que fosse repousar. Detânico, entretanto, quis voltar para o campo, porque seu time poderia estar precisando dele e se estivesse perdendo jogaria "mesmo se fosse na ponta direita", diz ele admitindo a veracidade dos fatos relatados. Quando chegou a campo soube que o Flamengo estava vencendo por 3x1. "Não foi preciso entrar". Como não eram permitidas substituições, o seu time esteve com 10 jogadores durante grande parte do jogo e isso o intrigava. Exemplos como esse credenciam amplamente o ex-zagueiro a criticar "as mordomias de hoje". "É demais. Se uma pulga morde um jogador, contratam especialistas para procurá-la e certificarem-se de que ela não era louca".

 

    Definindo-se como um "jogador duro, que visava a bola, mas que não podia deixar o adversário passar, se ela já tivesse passado", Detânico diz que "nunca ganhei um tostão com futebol. O único dinheiro que era distribuído entre os jogadores era o bicho quando vencíamos um FLAJU. Os torcedores contribuíam quando passavam um chapéu. Mesmo assim, era apenas o suficiente para cobrir o custo, hoje, de uma janta com uma cerveja". A sua maior recompensa em dias como esse era o próprio resultado do jogo, afinal sua maior tristeza sempre foi perder para o rival. E ele se preparava especialmente para o clássico. Motorista de caminhão, tinha que viajar para o centro do país com relativa frequência. Mas em semana de FLA-JU, Armando Corte ou Vasco Grezzana, flamenguistas para quem trabalhava, dispensavam-no a partir da quarta feira. "Minha física era carregar e descarregar caminhões. E jamais cheguei ao fim de uma partida sentindo que não podia aguentar", ressalta ele, ao fazer novamente uma comparação com o futebol atual. Para Detânico, nos últimos 50 anos, surgiram apenas dois grandes zagueiros no Caxias: Laércio, que considera o melhor de todos, e Luís Felipe. "Até o Bellini, que vi jogar, quando a coisa enfeiava tirava de balão. Agora eles querem ser diferentes, enfeitar, encostar a bola".

 

    Poucos chamavam Detânico pelo apelido de Ximango, que ainda não esqueceu. Muitos, e especialmente os adversários visavam aquele que parecia ser um zagueiro imbatível. "Fui um jogador marcado", resume ele. Ao seu lado, sua esposa Vilma comprova: "Eu torcia para o Juventude e tinha raiva dele antes de conhecê-lo pessoalmente. Depois, percebi que era outra coisa".

 

    Em 1947, recebeu convite para jogar pelo Internacional de Porto Alegre. O que para a grande maioria dos jogadores que atuavam em Caxias naquela época representava a realização de um sonho, para ele não teve tamanho significado. Ele confessa que teve um pouco de receio, afinal chegaria lá e disputaria uma posição no time. Mas como ele queria era mesmo jogar, e no Flamengo, nem respondeu à proposta feita. Foi a única oportunidade que teve para ser remunerado no futebol, embora no seu próprio time tenha jogado como muitos atletas que, vindos de fora, aqui chegavam recebendo salários.

 

    Tudo isso agora faz parte de um passado que o grande jogador não pretende esquecer. Hoje se considera apenas um torcedor. Deixou de ir ao campo somente nos quatro anos que durou a Associação Caxias de Futebol, porque mudaram as cores da camisa. Com a SER CAXIAS, o bordô, azul e branco novamente voltarem a ser as cores da camisa e Detânico não perdeu nenhuma partida: "O nome não é tão importante quanto as cores da camisa de um time", explica.

 

Time Campeão da Cidade em 1951

 

 

LAÉRCIO: NOME QUE MARCOU ÉPOCA

 

    Há vinte anos, Laércio Oliveira Bastos deixou o futebol. Durante todo esse tempo ele jamais deu uma entrevista. Embora procurado, evitou sempre dar declarações, porque considera encerrado este período de sua vida, alega, mas também porque demonstra certa dificuldade. "Nunca gostei, mesmo quando jogava. Fico meio nervoso". É essa simplicidade que continua caracterizando o hoje dono de uma estofaria. Casado, dois filhos, há vários anos o grande zagueiro não entra mais num estádio para assistir a um jogo. Explica que "não me atrai".

 

    Nos nove anos em que jogou pelo Flamengo, Laércio foi lateral-direto, lateral-esquerdo e zagueiro central. O torcedor que acompanhou o time no ínicio da década de 60 lembra dele como os da década de 40 de Detânico, ambos jogadores de defesa. Respostas curtas - só decidiu dar entrevista depois de insistência e pelos 50 anos do Caxias -, Laércio conta com escassos detalhes a viagem a Argentina. O jogo mais díficil foi conta o Gymnasia Esgrima. O resultado foi um empate em dois gols. A excursão não trouxe muita coisa para o já experiente e eficiente jogador. Foi na Argentina, lembra ele, que marcou o único gol de toda a carreira. "Quis cruzar e a bola entrou", define modestamente.

 

    Laércio fez parte daquele que ele considera o melhor dos últimos tempos. Foi em 1960. Com apenas 15 jogadores, o Flamengo conquistou o título da segunda divisão estadual, lhe garantindo a ascendência a divisão especial do campeonato gaúcho. Ele já fazia parte de um grupo de jogadores profissionalizados, com remuneração. Mas, garante, "não ganhava bem. Seria hoje um pouco mais do que um salário mínimo".

 

    Sérgio Moacir Torres Nunes foi o melhor treinador que teve. Flávio, Alcindo, Vieira, Sapiranga, melhores jogadores que enfrentou, embora Gilberto Andrade tenha sido o mais díficil de todos, "o que mais incomodava". O melhor jogador com quem atuou? Cita Artur, Fagundes e Valdemar. O melhor preparador físico? Não pode responder, porque não teve. Mas havia uma figura que era amigo de todos, incansável, exemplo de um profissional e que tinha o amor mais puroque um torcedor pode ter por um clube: Maneca. "Não tenho nem palavras para defini-lo", diz Laércio. Maneca, já falecido, foi uma das figuras humanas mais respeitadas em toda a história do clube.

 

    Laércio considerava-o amigo. E foi a amizade que fez com que inúmeras pessoas, algumas delas mantidas até hoje, que Laércio classifica como o que de melhor o futebol lhe deu. Quanto às tristezas, afirma apenas que "não trouxe nada de ruim".

    

Laércio, zagueiro do Flamengo

 

DEPOIS DE 16 ANOS DE EXISTÊNCIA O FLAMENGO CONSTRÓI SEU CAMPO

 

    A falta de um campo de futebol foi um problema com que o Flamengo conviveu por mais de 16 anos. Em 1935, quando iniciou suas atividades, o clube utilizava o campo que fora cedido anteriormente ao Rio Branco, mas não era de sua propriedade. Passou-se pouco tempo e o local foi requisitado pelos donos. A solução encontrada foi uma fusão com o Maguari, time do curtume do mesmo nome, que estava localizado em frente a onde hoje está a garagem da prefeitura, na rua Visconde de Pelotas. "Para conseguirmos o campo, tivemos que deixar o filho do dono jogar para nós", conta Ìtalo Bertuzzi.

 

    Esse local, porém, passados mais alguns anos, também teria de ser abandonado. O Flamengo, do ínicio da década de 40, ficou parado por cerca de 4 anos, voltando em 1947. Em seu retorno disputava as partidas no campo que pertencia ao Fluminense, e que fora do Eberle, situada na altura de onde atualmente está o Centro Administrativo Municipal. No ano seguinte, o problema voltou e dessa vez foi feito um acerto com o Grêmio Esportivo Gianella, que cedeu seu campo(no bairro Santa Catarina, onde está a mecânica rodoviária) para o Flamengo. Mas havia a necessidade de afastar definitivamente essa dificuldade que estava acompanhando a vida do clube. No ínicio da década de 50, quatro flamenguistas leveram adiante a idéia de construir um campo - ainda não era estádio. Guerino Pisoni, José Cosner, seu filho Adelar e Gastão Benedetti começaram a percorrer a cidade em busca de um local apropriado. Conta Adelar Cosner - os demais já faleceram - que num determinado dia chegaram a uma picada circundada por morros. Surgiu no mesmo momento o plano de fazer o campo e aproveitar a irregularidade do terreno para construir arquibancadas.

 

    O passo seguinte foi ver da viabilidade de ser conseguida a área de terra. Moradores nas proximidades informaram que ela pertencia à prefeitura. Os quatro ficaram animados, afinal, como declara Cosner, "o que é da prefeitura é do povo". Mas estavam muito enganados. A prefeitura não quis ceder o terreno e isso fez com que aumentassem as dificuldades. Sempre em contato, eles procuraram várias formas para transformar aquele terreno no campo do Flamengo. A mais viável foi a apresentada por José Cosner: uma permuta.

 

    Em sociedade com Raymundo Baldisserotto e David D´Agostini, José Cosner possuía uma área de terra de proporções semelhantes e que eles consideravam ideal, localizada no Bairro Cinquentenário. Decididos pela permuta, levaram a conhecimento do prefeito que em seguida remeteu o assunto a câmara de vereadores. Na ocasião o legislativo caxiense era formado por 11 vereadores e o PRP (Partido de Representação Popular) tinha uma bancada com cinco. Entre eles estava Germano Pisani, um dos maiores Flamenguistas que Caxias já teve. Quando foi feita a votação, cinco votos já estavam garantidos, mas havia poucas esperanças que surgisse o sexto. A votação foi secreta e, para surpresa, a permuta foi aprovada por seis votos a cinco. Nascia, nessa sessão da câmara de vereadores, o que muitos anos depois viria a se chamar Estádio Centenário.

 

    Com muitas dificuldades foi construído o campo. A partida inaugural foi no dia 25 de fevereiro de 1951, contra o Grêmio. O resultado não foi favorável ao Flamengo: perdeu por 6x1. Mas foi Torres, ponteiro esquerdo do Flamengo quem marcou o primeiro gol do novo campo - esse mesmo jogador, posteriormente, seria contratado pelo Grêmio. O time-base do Flamengo, nessa partida foi: Nino, Detânico e Ariosto, Dutra, Portuário e Mano; Sadi, Zizinho, Guido, Tim e Torres. O time do Grêmio tinha a seguinte formação: Sérgio, Hugo e Johny; Sarará, Verardi e Heitor; Gorião, Ferraz, Geada, Pedrinho e Detefon. Nesse mesmo ano o Flamengo foi campeão da cidade. O novo campo parecia ter trazido consigo novos horizontes.

    

Baixada Rubra, inaugurada em 1951

 

    Com o passar dos anos, novas obras foram sendo acrescidas. O cercamento do campo com tela - uma novidade, porque até então só existia o pará-peito, de madeira, - a construção das primeiras arquibancadas - seguindo a idéia inicial de acompanhar a irregularidade do terreno -, até a construção do pavilhão social, de madeira.

 

    Em 1963, quando o presidente era Carlos Miguel Piccoli, o Flamengo lançou o seu mais arrojado empreendimento até então: a construção de um estádio de futebol, com capacidade´para 40 mil pessoas. Mais ainda não era dessa vez que o grande estádio seria erguido. Um ano depois, sob a presidência de Giovani Scavino, foram construídos os primeiros 40 metros de arquibancadas do atual estádio. Impermeabilizadas, elas abrigam hoje os vestiários da SER CAXIAS e dos juízes. Nas administrações que se seguiram as obras nunca pararam. Não há, exceto nas lembranças das pessoas, informações precisas sobre os trabalhos desenvolvidos por cada presidente, por cada diretor de patrimônio, por cada flamenguista enfim, em relação ao novo estádio. Alguns até evitam fornecer dados, com a compreensível precaução de não cometer injustiças. Mas todos, sem exceção, reconhecem o valor das contribuições dadas por abnegados dirigentes ou colaboradores que permanecem no anonimato, mas nunca se furtaram de atender aos pedidos de ajuda.

 

    Mais recentemente, numa etapa que antecedeu a mudança de nome para SER CAXIAS, as obras tiveram uma aceleração no ínicio do que seria o estádio da Associação Caxias de Futebol. Cláudio Eberle era o presidente. Como a fusão acabou não dando certo, a tarefa de construir o grande estádio ficou mesmo para Francisco Stédile, com o auxílio indispensável de toda coletividade - 40 anos ápos sua fundação o Flamengo, agora como SER CAXIAS, tinha enfim o seu grande estádio: o Centenário.

 

INVENCIBILIDADE POR GRAMADOS DA ARGENTINA

 

    Desde que chegou ao Brasil, vindo da Itália e foi morar, com sua família no Bairro São Pelegrino, Giovanni Scavino começou a torcer pelo Flamengo. Na década de 50 passou a participar mais da vida do clube. Em 1964 chegou a presidência do clube. O médico Scavino guarda com todo cuidado em sua casa fotos, recortes de jornais e todo um acervo sobre a história de seu clube do coração. Em sua memória permanecem vivas as conquistas, de 1953 e 1960, do campeonato estadual da segunda divisão, títulos que ele considera dos mais importantes na vida do clube. Mas ele não consegue esconder a empolgação ao falar sobre a excursão à Argentina, feita em 1963. Ele era então diretor de futebol e acompanhou a delegação em todos os 12 jogos pelo vizinho país. O time voltou invicto, o que lhe valeu o título de "fita azul", identificação dada aos adversários que passavam pela Argentina e mantinham a invencibilidade ápos uma série de jogos.

 

    A viagem foi num DC-3, direto a Buenos Aires. Alguns dos times enfrentados não tinham grande força no futebol argentino, mas o então Flamengo jogou com equipes de maior expressão. Foi a excursão mais importante do clube até hoje. Na volta, Scavino conta que presenciou a maior manifestação popular que já viu em Caxias. Milhares de pessoas tomaram o centro da cidade e, amontoadas na então praça Rui Barbosa, recepcionaram os jogadores como se fossem heróis.

 

    O clube ganhou com a excursão, porque deixou na Argentina a melhor das impressões. A viagem rendeu também porque os jogadores adquiriram mais experiência. Segundo Scavino, os argentinos eram mais profissionais e isso se reverteu em ensinamento aos caxienses. O time que viajou era formado por alguns atletas que mais significativamente deixaram sua marca na história do Caxias. O diretor de futebol daquele ano destaca Lori, Zé das Bicas, Artur, Tarica, Laércio e Fagundes, este último posteriormente vendido ao Vasco da Gama do Rio de Janeiro, e que brilhou também no futebol venezuelano.

 

    Ao citar essa série de jogos em outro país como um dos fatos mais positivos ocorridos ao longo de sua história, Giovani Scavino salienta outros de igual importância, na sua opinião. Em primeiro lugar, destaca a fusão dos departamentos de futebol do então Flamengo com o Juventude, o que originou a Associação Caxias de Futebol. " No primeiro jogo lotamos o Jaconi".

 

    Depois fomos a Porto Alegre jogar contra o São José e foram necessárias dezenas de ônibus para levar os torcedores até a capital". O segundo fato mais importante, ainda conforme Scavino, foi a mudança de nome para SER CAXIAS, depois de consulta feita aos fundadores e votação em assembléia. "Alguns torcedores, desgostosos, podem ter se afastado. Mas foram poucos. Em compensação, trouxe um número muito maior, especialmente a mocidade, liderada por Germano Rigotto".

 

 

MUDA O NOME, PERMANECEM AS CORES E ERGUE-SE UM GIGANTE: CENTENÁRIO

 

    A fracassada tentativa de se formar um único time de futebol em Caxias - Associação Caxias de Futebol - para levar mais alto o nome da cidade e alcançar estágios nunca antes atingidos foi o ínicio de uma das maiores obras dentro do esporte do Rio Grande do Sul. O desvinculamento do E.C. Juventude trouxe como consquência a dúvida a respeito do futuro da Associação , e nessa indagação o Grêmio Esportivo Flamengo, não pode deixar de estar envolvido.A desativação foi cogitada, não como fruto de um derrotismo, mas baseada numa dura realidade provocada pelas dificuldades que cresciam. O ano era 1975, ainda bem vivo na memória dos caxienses.

 

    O patrimônio era reduzido, as possibilidades de seguimento na mesma atividade, remotas. Havia a necessidade de mudanças profundas, marcantes, para que com elas ressurgissem os atrativos que tanto empolgaram pelo menos a metade dos habitantes da segunda mais importante cidade do Rio Grande do Sul. Caxias continuaria com dois clubes de futebol. Mas como? A resposta foi encontrada na pessoa de Francisco Stédile, capitão de indústria bem sucedido e com plenas condições de levar adiante um empreendimento gigantesco, com suas dimensões a exigir um trabalho em conjunto e nas mesmas proporções.

 

    Em pouco tempo o empresário que anteriormente apenas uma vez estivera num campo de futebol. "Foi para assistir a um jogo entre destaques de São Paulo contra destaques do Rio de Janeiro" - e que sairá do estádio Pacaembu nada empolgado, transformou-se no presidente de um clube com uma árdua tarefa a cumprir. Mas para aceitar algumas condições foram impostas, circunstância normal quando prevalece a visão global sobre o que tem de ser feito. Era indispensável a colaboração de todos e mudar o nome do clube. A cidade precisaria ficar estampada na camiseta que a conduziria pelo maiores estádios do país. Essa também era uma forma de assegurar a participação de dezenas de empresários caxienses, que atenderam ao apelo feito por Stédile.

 

    "Nunca fui de ir à campo, mas sempre gostei de futebol. Mas jamais imaginei que viria a ser presidente de um clube", conta hoje o empresário e patrono da SER CAXIAS. " A Associação não tinha patrimônio nem estádio. Então eu disse que queria construir um estádio. Queria também trocar o nome para divulgar a cidade", continua Stédile. Nessa mudança voltaram as cores tradicionais do Flamengo: bordô, azul e branco. Isso foi determinante para manter um torno do clube os torcedores que antes da fusão rivalizavam com os juventudistas.

 

    As condições impostas foram aceitas, com raríssimas exceções. No dia 17 de Outubro de 1975 uma assembléia votou a troca do nome e a volta da camisa com as cores do Flamengo, aprovando-as. Em 28 de novembro do mesmo ano foi aprovada a reforma dos estatutos, com o que a Associação Caxias de Futebol ficava desativada e o Grêmio Esportivo Flamengo passava a se chamar Sociedade Esportiva e Recreativa Caxias do Sul - SER CAXIAS.

 

PARTICIPAÇÃO

 

    Francisco Stédile já possuía um plano para conseguir ajuda dos empresãrios caxienses. Reuniu dezenas deles em sua chácara, e objetivamente, expôs: "Cada um de vocêstem que assumir o compromisso de pagar o salário de um jogador por dois anos". Etapa vencida. Com isso, toda a receita que o clube tivesse seria carreada para as obras do estádio. Despreocupava-se a administração com a folha de pagamento. Pessoalmente, Stédile passou em mais de 100 empresas, e 70 delas contribuíram, número suficiente para saldar o compromisso mensal com os atletas e ainda com margem.

 

    O desafio maior, entretanto, permanecia: construir um estádio com capacidade para no mínimo 25 mil pessoas em menos de sete meses. Este curto espaço de tempo era decorrência de imposição feita pela então CBD(Confederação Brasileira de Desportos) - para um posterior convite à disputa do campeonato nacional. Faltavam ainda recursos para realizar a obra. Foram elaboradas promoções,rifas, venda de cadeiras, camarotes. "Não houve falta de dinheiro", garante Stédile, explicando que "tudo era mais fácil. Se fosse hoje..." Ele omitiu, porém, que quase ao final da construção os recursos escassearam e teve que comprar 800 cadeiras, tirando dinheiro do próprio bolso para concluir a obra. Ainda hoje ele possui mais de 500 cadeiras.

 

    "Nunca me passou pela cabeça que não seria possível levar a construção do estádio até o final", afirmava o empresário e patrono do clube. "Hoje, não sei quanto custaria", responde Stédile, lembrando que na ocasião "houve muito apoio, de todos". E ele não poderia de esquecer as dezenas de torcedores que diariamente iam ver a edificação subindo e saíam admirados com o milagre que estava acontecendo.

 

 

    Um homem que até então torcia apenas para a seleção brasileira de futebol e que gostava de corrida de automóveis passou a frequentar um estádio constantemente. "Nem sei como entrei nessa",fala, enquanto seu semblante revela que no interior de sua mente passam as imagens daquele recente período. Mas tudo acabou dando certo. As quatro companhias contratadas para executar a obra - era preciso concluí-la em menos de sete meses - cumpriram o prazo estabelecido e o Caxias iniciou uma nova etapa de sua história..

    

    Vencer o desafio que muitos poucos teriam coragem de aceitar foi condição importante para que as pessoas que podiam decidir o futuro do clube chegassem à conclusão de que Francisco Stédile era a pessoa ideal para presidí-lo. E tanto estavam certo que acabou sendo a pessoa que por mais tempo ficou na presidência do clube: por quatro anos seguidos, de 1976 à 1979. e depois em 1983 e 1984, quando encontrou a SER CAXIAS em sérias dificuldades financeiras e nos dois anos conseguiu saneá-las.

 

    Nesses seis anos de presidência, e especialmente nos quatro primeiros, Stédile foi responsável pela formação de grandes times. Sempre bem assessorado, montou uma equipe de trabalho que levou o Caxias a condição privilegiada dentro do cenário esportivo nacional. "Não convém citar tristezas". Essa frase limita sua resposta, embora deixe claro que elas existiram, geralmente patrocinadas pelo desrespeito de alguns poucos torcedores, dominados pela ânsia de vitórias. Quanto às alegrias, diz que foram muitas. Destaca o jogo da SER CAXIAS contra o Flamengo, no Maracanã, com indisfarçavel sorriso: "Um time de Caxias do Sul no maracanã, jogando contra o Flamengo. Eles nem sabíamos quem erámos. E o Bebeto marcou primeiro para nós. Depois o Flamengo empatou". Para quem antes nunca havia entrado num campo de futebol - exceção ao Pacaembu -, agora acompanhar o Caxias, mesmo a São Paulo ou Rio de Janeiro, era motivo de satisfação.

 

    "Sempre que vamos administrar uma coisa que não nos pertence, devemos tentar fazê-lo melhor do que fosse nossa". Essa filosofia Francisco Stédile, faz questão de salientar, não apenas porque a possui, mas porque é difícil vermos sendo praticada atualmenet em todos os níveis de administração. Modestamente atribui a construção do Estádio Centenário - nome em homenagem ao centenário da colonização italiana. - "à coletividade. Eu apenas coordenei". E não se afasta de princípios como o de que "sou totalmente contra termos jogadores emprestados. É ruim para o clube. Se não pudermos comprar o seu passe é porque não temos condições de tê-lo conosco". Foi assim que em sua administração surgiram fortes e grandes equipes. Durante os quatro primeiros anos de sua presidência, a situação era diferente da que vivemos hoje. Ele admite que "o investimento feito na aquisição de jogadores tinha retorno. Está mais difícil formar um bom time e ao mesmo tempo não se descuidar da parte financeira. 

    

    Francisco Stédile se define como um torcedor calado. Responde afirmativamente ao ser indagado se sofre com o time, mas garante que nunca chegou a extravasar esse sofrimento com chingões ao juiz ou qualquer outra forma de agressão. Sua visão sobre o futebol a curto prazo não é otimista: "A pior coisa que estão fazendo para os clubes é o excessivo número de jogos televisionados. O torcedor não está mais indo a campo. Se continuar assim, só vão restar os clubes grandes".

 

TRÊS DÉCADAS DE PRESENÇA NO BRASILEIRO

 

    A construção do estádio centenário em 1976, em sete meses e a participação do time no campeonato brasileiro representavam naquele ano, apenas a primeira etapa  no trabalho do então presidente e hoje patrono do clube, Francisco Stédile. Time e estádio eram condições fundamentais para a entrada do Caxias no grupo dos grandes clubes do futebol brasileiro, segundo a promessa do presidente da antiga CBD, hoje CBF, Heleno Nunes.

 

    Estádio pronto, time também, o Caxias iniciou sua participação no campeonato mais importante do país como o primeiro representante do interior do Rio Grande do Sul. E saiu-se muito bem. Naquele ano o Caxias estreou contra o Santos de Pelé, no Pacaembu, o Santos venceu por 3 a 1. A competição reuniu 54 clubes e o Caxias terminou em 15ºlugar, somando 25 pontos. No ano seguinte, o time grená voltou a ter um bom rendimento, ficando em 23ºlugar com 16 pontos entre 62 equipes. Em 1978, o Caxias teve seu melhor desempenho no campeonato nacional, numa competição que reunia 74 equipes, o Caxias ficou com a 10º colocação, com 35 pontos, e por pouco não chegou as quartas de finais daquela competição.

 

Equipe que disputou o Nacional de 1978

 

    Em 1979 o Caxias fez sua pior campanha no Nacional, o campeonato também teve a presença de outros clubes do estado, como Novo Hamburgo, São Paulo de Rio Grande, Brasil de Pelotas e Juventude. entre 96 equipes o Caxias ficou em 65ºlugar.

 

    Em 1987 o Caxias disputou o Módulo Amarelo do Campeonato Brasileiro. participou de 10 jogos e conseguiu somar apenas 11 pontos, ficando de fora do restante da competição. Em 1989 o clube disputou a segunda divisão nacional enfrentando primeiramente equipes da região sul. Chegou a classificar-se para a fase semifinal, mas foi desclassificado pelo Americano de Campos no famoso jogo de "cartas marcadas". Contam relatos desta partida que o árbitro dera um penalti para a equipe carioca onde o zagueiro Jairo havia derrubado o atacante do Americano à escandalosos 2 metros da área. Eram 43 minutos do segundo tempo e o jogo estava empatado em 1 a 1.

 

    Em 1991 o Caxias disputou sua primeira Copa do Brasil, novamente o primeiro clube do interior do RS a realizar tal fato. Passou pelo XV de Piracicaba na primeira fase, e acabou eliminado para o bom time do Goiás na segunda fase. Em 1993 o clube fechou as portas no segundo semestre por dificuldades financeiras, o que impossibiltou a disputa da seletiva Série C que classificaria os times participantes da Série B de 1994. Alguns torcedores consideram esse erro como determinante na diferença de categoria que a dupla CA-JU tem desde aqueles dias. O Juventude aproveitou a competição e em dois anos estava conseguindo seu acesso a Série A, enquanto que o Caxias, no mesmo período teve de recomeçar da Série C.

 

    O Caxias disputou por famigerados cinco anos a terceira divisão nacional, sempre com boas campanhas, mas eliminado nas fases decisivas da competição. Até que em 2000 a CBF remanejou a segunda divisão nacional e redefiniu as vagas conforme a importância dos clubes no cenário nacional e por suas campanhas recentes. O Caxias passou a disputar a competição desde então, e com boas chances de ascenso em 2001, quando chegou na última partida do quandrangular final necessitando de apenas um empate contra o Figueirense em Florianopólis. Os catarinenses venciam a partida por 1 a 0, eram 45 minutos do segundo tempo, e os irresponsáveis torcedores catarinenses invadiram o gramado, não permitindo os três minutos de acréscimos assinalados pelo juiz, juiz este que foi conivente numa das armações mais escancaradas do futebol brasileiro, e patrocinada pelo senhor Armando Marques, diretor de arbitragens da CBF. A questão meses depois foi para julgamento, em primeira instância o tribunal decidiu em favor do Figueirense, em segunda foi assegurada ao Caxias a volta do Caxias a primeira divisão do futebol brasileiro àpos 22 anos. Isso fez com que o clube fizesse uma série de melhorias de infra-estrutura e já se planejasse para uma competição mais difícil. Foi quando em um terceiro e confuso recurso os auditores deram ao Figueirense novamente a vaga, lhe retirando os pontos da partida, mas não os repassando ao Caxias. Uma palhaçada do ínicio ao fim, que culminou no reendividamento do clube e na falta de punição aos responsáveis.

 

2000, O CAXIAS CONQUISTA O ESTADO

 

    O Caxias sempre formou boas equipes e sempre teve presenças notáveis no certame estadual, como as equipes de 1989, 1990, 1992 e 1996. Em 1990, a equipe tirou o vice-campeonato do Internacional, campeonato este marcado pela lesão do goleiro Barbirotto, que muitos dizem foi decisivo na reta final do campeonato. Em 1996 com um bom investimento, reformando o gramado do estádio centenário e tendo de jogar boa parte do campeonato em Flores da Cunha, o Caxias beliscou a chance de novamente chegar nas finais de um campeonato Gaúcho.

 

    Mas foi em 2000, com uma equipe que não tinha nomes muito conhecidos, mas que surpreenderam positivamente desde o ínicio da competição, como Jairo Santos, Gil Baiano, Jajá, Ivair e Adão, o Caxias conquistou seu maior título, campeão do Estado do Rio Grande do Sul, feito este que só havia sido alcançado no campeonato gaúcho unificado pelo Juventude dois anos antes em 1998. A equipe venceu com sobras o primeiro turno do Octogonal Final, vencendo a Internacional, Grêmio e Juventude e garantindo uma vaga na final com antecipação, a partir daí foi preparando ainda mais uma equipe para a grande final. E foi um passeio no Centenário, 3 a 0 no Grêmio, onde diretores do clube da capital disseram que Caxias do Sul se transformaria numa "Kosovo", referencia a cidade da Bósnia que vivia mergulhada em uma guerra civil, de nada adiantou esse clima. O jogo da volta, marcado inicialmente para um domingo, foi adiado por causa de uma chuva  razoável(?), que os dirigentes gremistas pressionaram a federação e a arbitragem para que o jogo fosse adiado, e conseguiram, mas o que eles não conseguiram foi fazer um gol sequer no Caxias na quarta feira posterior, o que garantiu o primeiro título estadual ao grená de Caxias do Sul.

 

    De 2001 à 2004 o Caxias não conseguiu desenvolver boas campanhas no campeonato estadual, tendo a oportunidade de disputar o campeonato em chaves com a Dupla Grenal e o Juventude a equipe se ressentiu de poucos recursos e não conseguiu fazer frente a estas equipes sucumbindo ainda nas fases iniciais.